
Agradecimentos à mais nova contratação deste blog, o fantástico "repórter de imagem" que esteve lá para ...mais tarde se recordar! ;)
Obrigada, José Farinha!
"O valor das palavras na poesia é o de nos conduzirem ao ponto onde nos esquecemos delas.O ponto onde nos esquecemos delas é onde nunca mais se pode ter repouso." Natália Correia atrasdacortina@gmail.com


Apercebo-me que a minha vida tomou um rumo que não reconheço como um percurso que poderia ser o meu. Um estado de embriaguez entorpece-me o espírito que já é irrequieto. Para que as voltas que dou voltando ao mesmo lugar mas noutra plataforma. Distorcida.
A minha realidade compõe-se com os factos que me deveriam ser novos mas, parecem instalados como se estivessem lá desde sempre, com os vícios que são meus. E assim, mil e umas vezes mais olho-me ao espelho e não me reconheço e cada vez mais o meu rosto faz sentido para a imagem que tinha de mim, porque as minhas preocupações são outras que nunca pensei serem as que tenho. É com se estivesse noutro sítio quando chega a altura de fazer opções e quando voltas e olhas e…
Nada acontece, então. E fico ou deixo-me ficar. Porque as colinas estarão para sempre lá e a areia e o vento e o mar e os rios e as flores e as árvores. E os pássaros que me irritam de manhã.
Durmo sonolentamente. E não acordo. Porque tenho medo que seja um sonho.
E afinal, a manhã já passou. Alívio contido. Porque estou de férias.
(A pedido de numerosas famílias, foi o post possível sobre férias...ai... Mais uma vez, obrigada, Afonso! )
Saiu de casa apressado. Pegou na mala de ferramentas e abalou. Diziam que era bom moço e muito bom trabalhador. Diziam que era amigo de ajudar mas, não falava muito. Era pouco dado à bola e aos copos. Alinhava na malha, de quando em vez. O que gostava mesmo era de ficar sentado na borda do passeio a traulitar canções e a inventar histórias sobre os pássaros. Os pássaros que lhe enchiam a retina e os ouvidos criados numa serra pequenina. Abalou para a fábrica. porque ía muito atrasado. Dizem que adormecera, o que era estranho, porque o rapaz deitava-se cedo. Nem ao café vinha. Só ao Sábado. Dizem que nunca lhe ouviram suspiros pelo totoloto ou pela partida para a cidade. Que gostava muito disto. Que não largava isto por nada. Era um rapaz muito jeitoso. Trabalhador...e humilde, muito humilde. Abalou. De vez. Mas, que não pode ter sido, que algo lhe aconteceu, será que foi assaltado pelo caminho? A Guarda não encontrou nada. Nem a família pode responder porque não sabe. Mas ainda ficou de passar cá a semana passada para me arranjar a porta do galinheiro. E ele nunca faltava. Ai que mundo este, Meu Deus...
O S. João não me deu nenhum balão.
Levantou-se e foi-se embora.
Deixou-me uma ovelha tresmalhada e pediu-me que olhasse por ela.
Ainda bem que o gato não é alérgico ao pelo.
O S. João pediu-me que não rimasse, por favor.
Acedi-lhe sem cedilha.
Também não gosto de rimas.
E a ovelha bale que se farta e come a comida do gato.
O S. João queimou-se numa brasa muito quente.
Não lhe fiz um curativo.
Deixei que a fogueira amainasse como o vento e ri-me muito na cara dele.
A ovelha não gostou. Mordeu o gato e foi-se embora.
Com o S. João ao colo.

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.
Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.
(António Gedeão)

Voodoo Girl who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.
But she knows she has a curse on her,
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,
the pins stick farther in.
(Do senhor Tim Burton e do seu livro "The Melancholy Death of Oyster Boy", imagens incluídas. Só porque me apetece e eu gosto muito!!)
Levanta-se cedinho, dá um beijo à mulher, outro à mãe, que é um doce e chora de cada vez que presencia um acto de bondade, e sai para o café. Há milhares de coisas a tratar. Não é rico nem quer ser. Adora a condição de ter que trabalhar e recebe as contas fixas de telefone, luz e água com um prazer mórbido de quem tem um orgulho escondido por poder pagar.
Há já muitos anos que se dedica a servir cafés curtos ou compridos a senhoras e a senhores. Com jornal ou com cheirinho. Só para começarem a manhã.
Todos os dias, reclama sobre o Sporting com alguém. Elogia o governo, porque é preciso por ordem nisto e com um embaraço separa sempre uns restinhos do almoço para uma cigana de cabelo negro de fome que lhe mendiga uma sopa. Fiado, nunca!
Sente que esta juventude é mais alegre. Gosta de ver os cabelos de cores diferentes. Os brincos deslocados para outros lados do corpo que também é pintado como o dos índios. Só lhes lamenta a falta de crítica. Ai, que não fazem ideia do que é atravessar a fronteira com panfletos comunistas debaixo de dois quilos de roupa. Jacinto nunca o fez. Mas, suspira como quem era obrigado a frequentar a paróquia enquanto os vizinhos heróis eram com bravura torturados por uma PIDE nessa lide habitual. De tempos menos bons mas, com mais moral!
A seguir a qualquer dia veio um qualquer outro. Mais longo ou mais curto. Depende sempre do ponto de vista da negação.

Faça o que pensar sonhe o que desejar, nunca estarei saciada. Porque me custa pensar no que fazer e não durmo o suficiente para sonhar.
(Obrigada, Afonso.Outra vez...)
Antes assim que nunca mais. Porque,
Fomos um para o outro o que não seríamos para ninguém.
O ódio penetrou-te o ADN.
O ódio consumiu-me como fogo.
Sou cinza e distracção.
E enquanto não te expurgar. Mais letras preencherão palavras.
Mais manias a minha consumação.(Obrigada, Afonso! Mais uma vez...)
One Of Us Cannot Be Wrong
I lit a thin green candle, to make you jealous of me.
But the room just filled up with mosquitos,
they heard that my body was free.
Then I took the dust of a long sleepless night
and I put it in your little shoe.
And then I confess that I tortured the dress
that you wore for the world to look through.
I showed my heart to the doctor: he said I just have to quit.
Then he wrote himself a prescription,
and your name was mentioned in it!
Then he locked himself in a library shelf
with the details of our honeymoon,
and I hear from the nurse that he's gotten much worse
and his practice is all in a ruin.
I heard of a saint who had loved you,
so I studied all night in his school.
He taught that the duty of lovers
is to tarnish the golden rule.
And just when I was sure that his teachings were pure
he drowned himself in the pool.
His body is gone but back here on the lawn
his spirit continues to drool.
An Eskimo showed me a movie
he'd recently taken of you:
the poor man could hardly stop shivering;
his lips and his fingers were blue.
I suppose that he froze when the wind took your clothes
and I guess he just never got warm.
But you stand there so nice, in your blizzard of ice,
oh please let me come into the storm.
“Quanto é o bilhete, por favor?”
“Para onde quer ir?”
“Até ao Carvalhido, passa lá, não passa?”
Com um aceno respondeu que era um Euro, retirou um bilhete do monte preparado e arranjado por um elástico de escritório, entregou-o e ficou à espera que ela contasse ou reunisse os trocos em moedas castanhas que se debatiam furiosas dentro da bolsa minúscula procurando alcançar a quantia exacta.
O autocarro finalmente seguiu. Sentou-se no único lugar à beira da janela entre um rapaz borbulhento e fanático de informática, tendência escondida atrás dos óculos grossos, as suíças mal cortadas, o olhar vago e as revistas debaixo do braço que denunciavam os conhecimentos de linguagens estranhas e binárias e de java e não de jade, e um senhor muito sozinho e esquecido, pela maneira desalinhada em que se apresentara provavelmente num café de juventude aos amigos mais velhos. Ou a ninguém. Os olhos não tinham o brilho que os olhos costumam ter. Eram de um brilho enevoado. As mãos haviam sido de um malandro ou de gente fina. Os dedos desse homem velho e esquecido eram de finura e candura, descobria-se uma pele que não fora viciada pelo trabalho físico ou agreste, porque as mãos ainda pareciam macias de quem nunca experimentou um calo. Mas, agora era só um velho esquecido num banco de dois lugares num autocarro que passava ao Carvalhido.
Enquanto o autocarro deslizava entre passadeiras de peões, semáforos intermitentes, mulheres grávidas nos passeios e adolescentes nas paragens, Carolina engolia o resto do café ainda mentalmente e percorria vezes sem contas as palavras repetidas durante o jantar que oferecera em sua casa na noite anterior a três amigos mais próximos.
Durante o jantar, que não fora breve mas antes prolongado, inspiraram-se em rios tintos maduros do Douro e a voz de um dos presentes profetizou-lhe a solidão por afastamento imposto e consciente. Nunca perante os vidros brilhantes da cristaleira da sala que vez alguma conteve cristais e até serve de estante das relíquias que adquiriu ao longo dos anos, Carolina suspirara diante as palavras e ataques que lhe dedicaram nessa noite de jantar servido com entradas, direito a sobremesa e café com cigarrilhas. Vergou e inclinou a cabeça silenciosa à má disposição de quem se havia lembrado de lhe atirar culpas dos milhares relacionamentos que nunca soube manter nem com os amigos, apesar de se ter admitido que era por isso que as amizades eram fáceis de construir ao lado dela. Era fácil transpirar um ai de leve paixão por aquele sorriso magro, de linhas rectas e sinceras, porque Carolina estava sempre presente, mesmo quando desaparecia afundando-se ou dissolvendo-se na multidão e nunca mais ninguém a via, até ela decidir voltar. Carolina nunca quis dar razão aos amigos que a assombraram na noite anterior, porque foram todos vítimas da sua presença. Todos haviam querido ser heróis nos braços daquela figura frágil e esguia. Por isso decidira que não tinham razão e debateu com eles a noite toda, até que foram embora. O sono que não entrava bloqueado por essas palavras que ainda a seguiam quando se esqueceu do troco do café, quando se sentou no autocarro que a conduzia.
Muitos anos já teria assim? Pareciam tão poucos comparativamente a todo que ela ainda queria fazer e que só por si demorariam tanto tempo que ainda não estava de certeza na altura de pensar que a necessidade de assentar já não faz parte da pressão social imposta às mulheres, mas eram os próprios amigos, companheiros de ideais e de revoluções e independências que a sentiam despegada de companhia e de planos que a carregavam com acusações. Planos. Que planos, quando se sentia demasiado irresponsável para ter a seu cargo a missão de fazer um plano? Os planos são coisas projectadas e pensadas e que são feitos para não falharem, poderia lá ela dedicar-se a que plano fosse quando não tinha preparação de capitão ou comandante para ter a responsabilidade do rumo que as coisas deveriam tomar. Arre! E essa manhã custou imenso a passar. Porque começou na madrugada do fim do jantar e duraria provavelmente até que lhe caísse a Rita, colega do escritório no colo a chorar que o marido ou namorado - porque Carolina não tinha a certeza, nem eles, se eram casados ou não - era um bruto e não lhe ligava nenhuma e preferia ficar a jogar “play station” com os amigos e essas coisas todas que os homens insensíveis ou distraídos são constantemente acusados de fazer.
Aí Carolina soltou um alívio quando a Rita chegou com os olhos inchados do choro de mais uma discussão e pode então, Carolina esquecer que andara barata tonta e nem dormira por causa dos amigos alarmistas e ciumentos da vida descomprometida que levava. Ai, que o ciúme é uma coisa muito feia!


Porque sei e acredito.
Acredito que se um dia conseguissem adivinhar e perceber como sou chegariam à mesma conclusão científica e racional que explica, racional e cientificamente os meus porquês.
A conclusão será óbvia e curta.
Mas, decerto fica para outra vez. Porque me dá mais gozo falar com palavras que são o código dos meus segredos, mas são apenas delírios para quem as lê. É quase um conforto.
Quereria dizer-te que o meu mundo é estranho porque o faço. Estranho. Mas tão absurdamente simples, e para que ninguém o perceba complico! Ufa! Um alívio que é mentira mas, reconfortante.
Quereria dizer-te o quão é fácil apreciar a tua maneira de suspirar e o sorriso das tuas feromonas… Quereria dizer-te o quão fácil é ficar inspirada pelo teu jeitinho de adormecer. Dele, memória vã.
É um vento que sopra lá fora e quase desmaio. De uma infelicidade amargurada. Mas doce.
E a pose de anjinho, com um piscar no olho que faz a tentação do teu olhar ser diabólico.
E é chegar à conclusão que quando te apercebes que afinal já não compreendes o que se passa à tua volta e quase imediatamente essa linha de raciocínio tem que se transportar para o facto que também, e assim, afinal não te conheces. Oh, havia tanto que te queria dizer, mas não posso, porque não saberia como.
Os dias demoram-se quando a demora das nossas decisões tardam em surgir. Um dia e depois outro e mais outro e não que baste só o pensar no que se poderá fazer. Não basta apenas achar que se tem capacidade para fazer quando é necessário fazê-lo.
Depois de descobrir que não tinha mais leite no fundo do pacote já defunto decidiu que o café da manhã lhe sabia bem melhor no tasco do Sr. Jacinto, junto à estação.
E foi com estas manhãs que o Gonçalo se habituou ao mimo dos pardais no passeio e agora tira-lhes fotos com o telemóvel que é máquina de filmar e de gravar som e de consultar a internet e que também dá para fazer chamadas.
Esquece porque é que gosta tanto dos pardais e da senhora que lhes dá pão.
Tinha três anos de idade por fazer e recorda das mãos do avô os passeios que davam no centro da cidade e o que tinha de fugir das pombas que o cobriam quando o avô o cercava de milho tornando-se um isco totalmente acidental das milhares ou só centenas de pombas que caiam atraídas com o som do cereal a bater na calçada escorregando pelo Gonçalo abaixo que só queria era fugir porque as pombas eram muitas. Enquanto isso, o avô ria orgulhoso da estátua de penas agitadas em que se tornara o neto. Deve ser por isso que hoje Gonçalo se fixa nos pequenos pardais que não são tão violentos, mais modestos e pouco rabugentos, assim como a mão doce da velhinha com o puxo no alto da nuca que não alimenta pombas, mas um bando de pardais à solta, como se estivessem em Paris, numa qualquer esplanada sobre o Sena. Com as vozes melódicas da brisa de fim de tarde a anunciar um momento de arte ou sublimação com o chilrear contente dos bandos. À solta. E porque é pão e não milho...

"O Clube Literário do Porto tem a honra de convidar Vª Exª a estar presente na Inauguração da Exposição de Fotografia “Triângulo” de Jorge Garcia Pereira que terá lugar no dia 10 de Março, pelas 21.30 h."
A não perder!
Ahhhh, como muito bem visto por uma leitora atenta , faltou incluir a morada... Acontece, acontece....
É assim: Clube Literário do Porto: Rua Nova da Alfândega, 22. 4050-430 Porto
Passam os dias lustrosos que lhe anunciam chuva.
